A História e a Evidência do ‘Comma Johanneum’ em 1 João 5:7
O debate em torno do 'Comma Johanneum', o trecho de 1 João 5:7-8 que menciona o Pai, a Palavra e o Espírito Santo, é um dos mais complexos na crítica textual bíblica. Para muitos, a ausência dessa passagem em alguns dos manuscritos gregos considerados mais antigos (como o Códice Sinaiticus e o Vaticanus) é prova de sua inautenticidade. Contudo, uma análise aprofundada, especialmente através das lentes da patrística, da manuscritologia e da teologia, revela uma história muito mais rica e robusta, que sustenta a sua preservação nas Escrituras. Este artigo busca demonstrar por que o Textus Receptus, ao preservar essa cláusula, reflete uma verdade bíblica e histórica que ecoa desde os primeiros séculos da Igreja.
A Importância do Texto para a Teologia da Trindade
O trecho de 1 João 5:7 (ACF, KJV, RVG) "Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um", não é uma adição textual; além disso, ele serve como uma pedra angular para a doutrina da Trindade na teologia cristã. Esse texto articula, de forma direta e poderosa, a unidade substancial das três Pessoas divinas, uma verdade central para a fé cristã. A remoção desse versículo não desfaz a doutrina, que é abundantemente confirmada em outras partes da Bíblia, mas enfraquece uma de suas declarações mais explícitas.
Evidência Patrística e a Presença do Comma na Antiguidade
A evidência mais forte para a defesa do Comma Johanneum não reside apenas nos pergaminhos primitivos ou manuscritos gregos medievais, mas no testemunho dos Pais da Igreja. A passagem não é uma interpolação tardia, mas um texto conhecido desde os primeiros séculos no Ocidente.
Tertuliano (c. 160-220), em sua obra Adversus Praxean (capítulo 25), faz uma alusão clara à unidade da Trindade que ecoa a linguagem do Comma Johanneum. Ele afirma que a "conexão do Pai no Filho, e do Filho no Paráclito" resulta em "três Pessoas coerentes... estes Três são uma essência". Sua defesa da unidade de "essência" e distinção de "Pessoas" é uma defesa explícita da doutrina trinitária que ele extrai do conceito bíblico, e que Cipriano, seu seguidor, citaria diretamente.
Cipriano de Cartago (c. 200-258), um dos mais influentes bispos e mártires, cita o trecho diretamente em De Unitate Ecclesiae (Da Unidade da Igreja), capítulo 6, afirmando que "o Senhor diz: ‘Eu e o Pai somos um’... E novamente, está escrito do Pai e do Filho e do Espírito Santo: ‘e estes três são um’." (Cf. MPL, vol. 4, col. 504A).
Essa linha de testemunho continua com vigor:
No século IV, Prisciliano (m. 385), em seu Liber Apologeticus, e Idácio, em seus escritos, citam o versículo como parte das Escrituras.
No século V, Vigílio de Tapso, autor de Contra Varimadum, e Victor de Vitensis, em sua Historia Persecutionis Africanae Prov., capítulo 2, seção 82, relatam que a passagem foi usada no Concílio de Cartago em 485 d.C. por 350 bispos para provar a divindade do Espírito Santo.
São Jerônimo de Estridão (c. 347-420), o tradutor da Vulgata Latina, em seu prólogo às Epístolas Canônicas, denuncia a corrupção do texto por "tradutores infiéis contrários à verdade", que omitiram a menção do "Pai, a Palavra e o Espírito" (MPL, vol. 29, col. 847A).
A presença do texto também é atestada em outras traduções antigas. O Comma Johanneum estava presente na Vetus Itala, uma antiga tradução latina feita no século II, e foi citado por autores como Isidoro de Sevilha e Beda, o Venerável. A afirmação de que ele não estaria na Peshitta, a tradução siríaca, também tem sido contestada, pois a passagem é citada por Jacó de Edessa (séc. VII), um proeminente escritor sírio, indicando que a cláusula era conhecida no Oriente e não apenas no Ocidente.
Testemunho dos Pais Gregos
Embora seja verdade que a maioria dos Pais Gregos não cita diretamente a passagem, isso não significa que ela fosse desconhecida. São Atanásio de Alexandria (c. 296-373) e São Gregório Nazianzeno (c. 329-390) aludem ao versículo, defendendo a Trindade em termos que só fazem sentido à luz de 1 João 5:7. Gregório Nazianzeno, debate a Unidade e a Trindade, sugerindo estar familiarizado com o versículo e defendendo-o contra oponentes (The Nicene and Post-Nicene Fathers, Vol. 7, pp. 323–324).
A Manuscritologia e a Hipocrisia do Texto Crítico
A defesa do Comma Johanneum expõe as falhas metodológicas da crítica textual moderna, que muitas vezes age com critérios subjetivos e parciais.
"Não está na maioria dos manuscritos gregos"
Este argumento, embora numericamente correto em relação aos manuscritos existentes, é hipócrita. O Texto Crítico (TC) frequentemente defende leituras que estão em uma minoria esmagadora de manuscritos, como em 1 Timóteo 3:16 (onde a leitura de óς traduzido por "quem, que, aquele" em vez de θεóς "Deus" é apoiada por apenas 2% dos manuscritos) ou o final de Marcos 16, que o próprio TC sinaliza como duvidoso. Assim, a quantidade de manuscritos não é o critério principal para os defensores do TC, tornando o argumento contra o Comma uma exceção à regra que eles mesmos adotam.
"Os manuscritos com a Comma são tardios"
Este argumento também é desonesto. O renomado crítico textual Bruce Metzger afirmou em O Texto do Novo Testamento (3ª ed., 1991, p. 151-152) que "mais antigo não significa mais confiável" e que "não há correlação científica entre a idade de um manuscrito e seu número de erros de copista." Se a antiguidade não é um critério absoluto, por que ela é usada de forma seletiva para desqualificar o Comma Johanneum? A verdade é que a evidência histórica da patrística e das antigas traduções demonstra que o texto existia muito antes dos manuscritos gregos que são hoje considerados "tardios".
Análise Lexical e Estrutural
Além das evidências externas, a análise interna do texto corrobora sua autenticidade. O versículo 7 é uma parte orgânica do contexto, sem a qual a transição do versículo 8 se torna gramaticalmente desajeitada em grego. A estrutura de 1 João 5:7-8 com o Comma completo segue um padrão de testemunho "no céu" e "na terra" que é teologicamente e retoricamente coerente. A ausência do versículo 7 cria um solecismo gramatical (um erro grave) no texto grego, o que é um forte indício de que o texto original foi alterado.
Conclusão: Uma Questão de Preservação e Fidelidade
A defesa do 'Comma Johanneum' não é um mero capricho acadêmico. É a defesa da fidelidade da Palavra de Deus conforme ela foi recebida e preservada ao longo dos séculos. O Textus Receptus, representado em português pela Almeida Corrigida e Fiel (ACF) e a King James Fiel (BKJ), preservou essa passagem não por acaso, mas por uma rica história de evidências que conectam esse versículo diretamente à fé da Igreja primitiva.
O testemunho dos Pais da Igreja, tanto no Ocidente quanto no Oriente, e a existência de manuscritos que confirmam a linhagem do Textus Receptus, são provas irrefutáveis de que o texto de 1 João 5:7 é, sim, parte do cânon inspirado. Ao contrário de uma suposta "adição posterior", o Comma Johanneum é uma porção do texto que foi intencionalmente removida pelos hereges para atacar a doutrina da Trindade, e a providência divina agiu na história para que essa verdade fosse restaurada e preservada para as gerações futuras. Que possamos valorizar a herança textual que Deus nos concedeu.
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Bibliografia
Migne, J.-P. Patrologiae Cursus Completus: Series Latina (MPL). Paris: J.-P. Migne, 1844-1865.
Volume 2: Inclui as obras de Tertuliano, como Adversus Praxean.
Volume 4: Contém os escritos de Cipriano de Cartago, incluindo De Unitate Ecclesiae.
Volume 29: Apresenta as obras de São Jerônimo de Estridão, com o prólogo às Epístolas Canônicas.
Schaff, Philip (ed.). Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, Series II. Vol. 7: St. Cyril of Jerusalem, St. Gregory Nazianzen. Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1894.
Contém a Oração 31 de Gregório Nazianzeno, que faz alusão ao Comma Johanneum.
Metzger, Bruce M. O Texto do Novo Testamento: Sua Transmissão, Corrupção e Restauração. São Paulo: Edições Paulinas, 1991. (Apesar de defender o Texto Crítico, essa fonte acadêmica foi citada no artigo para contextualizar o debate sobre a idade dos manuscritos).
Maynard, Michael. A History of the Debate Over 1 John 5:7–8. Tempe, AZ: Bible for Today Press, 1995. (Este é um dos estudos mais completos sobre o tema, e sua leitura é altamente recomendada).
Vitensis, Victor. Historia Persecutionis Africanae Provinciae. (Esta obra documenta a história do Concílio de Cartago e o uso do "Comma").
Boyd, J. M. “And These Three Are One” (1 John 5:7) (Parte 1) e (Parte 2). Disponível em:
www.jesus-is-savior.com. (Artigo que oferece uma análise textual e histórica do Comma Johanneum).
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