A Confissão Perdida: Por que Atos 8:37 é Essencial para a Fé Cristã
O livro de Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, é um relato dinâmico da expansão da Igreja primitiva. Nele, encontramos a história inspiradora de Filipe e o eunuco etíope. No entanto, ao comparar diferentes traduções bíblicas, muitos leitores notam uma ausência curiosa e significativa. Em versões como a Almeida Corrigida e Fiel (ACF) e a King James Version (KJV), lemos um versículo poderoso em Atos 8:37: "E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus."
No entanto, em traduções modernas baseadas no Texto Crítico, como a Nova Versão Internacional edição de 2023 (NVI23), este versículo está completamente ausente! Essa omissão levanta uma questão crucial: por que um trecho tão importante, que descreve a confissão de fé do eunuco, foi removido? Vamos ver porque Atos 8:37 não é uma adição posterior, mas uma parte autêntica e divinamente inspirada do texto sagrado.
A Importância Teológica de Atos 8:37
A ausência de Atos 8:37 na NVI23 e em outras traduções baseadas no Texto Crítico é mais do que uma simples diferença textual; ela representa uma perda teológica. A passagem descreve um momento essencial: a confissão de fé antes do batismo. Sem ela, a narrativa de Atos 8:36-38 perde parte de sua clareza e poder. O eunuco, após ouvir o evangelho, pergunta: "Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?" (Atos 8:36). A resposta de Filipe, seguida pela confissão de fé do eunuco, completa o quadro do batismo cristão como um ato que requer fé explícita em Jesus Cristo como o Filho de Deus.
Essa confissão de fé não é um mero detalhe, mas um padrão repetido nas Escrituras. Romanos 10:9-10 nos ensina que "Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação", sendo assim, Atos 8:37 é a demonstração prática dessa verdade teológica, servindo como um modelo para a Igreja de todos os tempos.
A Evidência Manuscritológica e a Defesa Histórica
Os críticos textuais, que utilizam o Códice Sinaiticus e o Códice Vaticanus como base, argumentam que a omissão de Atos 8:37 nesses manuscritos "mais antigos" é prova de que o versículo é uma adição. No entanto, esse argumento ignora uma vasta e rica tradição manuscritológica e histórica.
O versículo está presente em uma impressionante quantidade de manuscritos:
Traduções Antigas: Atos 8:37 é encontrado em manuscritos antigos da Vulgata Latina, bem como em versões siríacas (Peshitta) e etíopes. A presença do versículo nessas traduções, que datam de séculos antes dos manuscritos gregos mais famosos, demonstram que ele fazia parte do texto original.
Pais da Igreja: O versículo foi citado por Pais da Igreja de diversas épocas e regiões.
Irineu de Lyon (c. 130-202 d.C.), em sua obra Contra as Heresias, Livro III, Capítulo 12, seções 7 e 8, faz referência à confissão do eunuco, embora não cite o versículo palavra por palavra, ele afirma que "ele (o eunuco) disse, 'Eu creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus'". Isso demonstra que a confissão era conhecida e considerada parte da narrativa desde o século II.
Cipriano de Cartago (c. 200-258 d.C.), em suas Epístolas, se refere diretamente ao versículo em sua defesa da prática batismal. Em sua Epístola 19, ele usa o versículo para enfatizar que a fé e a confissão são pré-requisitos para o batismo.
Orígenes (c. 185-254 d.C.) faz alusões claras à passagem em seus escritos. Em seu Comentário sobre João, ele se refere ao batismo do eunuco e à confissão de sua fé.
Ambrósio de Milão (c. 339-397 d.C.), em sua obra Do Espírito Santo (Livro I, Capítulo 11), cita o versículo na íntegra para argumentar sobre o batismo. Ele escreve: "Pois, se o batismo de um pecador não pode ser perfeito sem o Espírito Santo, como ele pode ser perfeito no caso de um fiel? E por isso, quando o etíope respondeu a Filipe, que perguntou-lhe se ele acreditava em Cristo, ‘Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus’, ele foi batizado."
Essa evidência patrística e de traduções antigas demonstra que o versículo era conhecido e aceito como parte das Escrituras muito antes de ser omitido nos manuscritos que hoje formam a base do Texto Crítico.
A Providência Divina na Preservação Textual
A crítica textual moderna, ao priorizar a antiguidade de poucos manuscritos corrompidos, muitas vezes falha em considerar o processo de transmissão da Bíblia ao longo da história. O Textus Receptus não é um mero conjunto de manuscritos "tardios"; ele é o resultado da providência divina que preservou a Palavra de Deus de forma pura. O teólogo John Owen, em seu trabalho sobre a preservação das Escrituras ("The Causes, Ways, and Means of Understanding the Mind of God" - "As Causas, Modos e Meios de Entender a Mente de Deus"), argumentou a favor da providência divina na preservação do texto bíblico, afirmando que o texto que a Igreja de forma mais ampla e consistente utilizou é o mais confiável. Atos 8:37 é um exemplo perfeito desse princípio. Ele foi preservado na grande maioria dos manuscritos e na tradição da Igreja ao longo dos séculos, demonstrando sua autenticidade.
Portanto, quando lemos a confissão de fé em Atos 8:37, não estamos lendo uma adição humana, mas sim um versículo que foi intencionalmente preservado por Deus. Sua omissão em manuscritos corrompidos e nas versões modernas representa uma perda de clareza teológica e um desvio da tradição textual fiel que nos foi legada.
Em um mundo onde a fé é frequentemente questionada, a clareza sobre o que o batismo realmente significa é vital. Atos 8:37 serve como um lembrete de que a fé em Jesus Cristo como o Filho de Deus é a base de nossa salvação e a porta de entrada para a vida cristã. Que possamos, como o eunuco, crer de todo o coração e confessar essa verdade, confiando que a Palavra de Deus foi fielmente preservada para nós e será para toda a Igreja até a Vinda do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!
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Bibliografia
Owen, John. The Causes, Ways, and Means of Understanding the Mind of God ("As Causas, Modos e Meios de Entender a Mente de Deus"). In: The Works of John Owen. Vol. 16. Editado por William H. Goold. Londres: The Banner of Truth Trust, 1850-53 (reimpressão 1965-68).
Robinson, Maurice A. & Pierpont, William G. The New Testament in the Original Greek: Byzantine Textform. Atlanta, GA: The New Testament in the Original Greek, 2005. (Embora seja uma edição moderna do Texto Majoritário, sustenta muitas passagens do Textus Receptus como essa de João 8:37).
Metzger, Bruce M. O Texto do Novo Testamento: Sua Transmissão, Corrupção e Restauração. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.
Irineu de Lyon. Contra as Heresias. Livro III.
Cipriano de Cartago. Epístola 19.
Ambrósio de Milão. De Spiritu Sancto (Do Espírito Santo). Livro I, Capítulo 11.
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